quinta-feira, 28 de abril de 2016

9 em cada 10 executivos acham corrupção algo comum


Por: 

Weruska Goeking

Pesquisa da Ernst & Young mostra também que 70% avaliam que crimes acabam sem condenação.

SÃO PAULO - Para 90% dos executivos brasileiros, ou 9 em cada 10, corrupção e suborno são práticas frequentes no ambiente de negócios nacional, segundo pesquisa da Ernst & Young.
O resultado coloca o Brasil na posição de país com a maior percepção de corrupção do mundo entre as nações entrevistadas, segundo seus próprios executivos. O percentual brasileiro é maior do que a média na América do Sul (74%), mercados emergentes (51%), média global (39%) e mercados desenvolvidos (21%).
“Na edição anterior do levantamento, em 2014, o Brasil ocupava a oitava posição do ranking, o que mostra uma deterioração significativa na percepção referente ao cenário nacional”, diz José Francisco Compagno, sócio de auditoria da Ernst & Young.
Pizza
Para 70% dos executivos brasileiros, o governo está disposto a processar indivíduos envolvidos em casos de corrupção, mas esses esforços não se convertem efetivamente em condenações. Ou seja, a percepção é que tudo acaba em pizza mesmo.
O percentual é bastante superior à média global de 47%. O número coloca o Brasil na sexta posição entre os 29 maiores mercados pesquisados sobre a falta de segurança em obter condenações em casos de corrupção. Tailândia, Portugal Croácia, Taiwan e Eslovênia ocupam as cinco primeiras posições, nesta ordem.
“Resultados como esse mostram que a percepção pouco favorável dos executivos com relação à situação do Brasil vai além do mundo de negócios e atinge também o poder público”, avalia Compagno.
De acordo com 20% dos participantes brasileiros, o governo está disposto a entrar com os processos e as ações devem terminar em condenações. Apenas 10% dos profissionais afirmaram que o governo não parece disposto a processar indivíduos envolvidos em casos de corrupção.
Punição como exemplo 
O Brasil foi o único país em que todos os executivos ouvidos acreditam que processos movidos pelo governo contra os indivíduos ajudam a coibir a prática de fraude, suborno ou corrupção por outros executivos. 
Apesar da percepção em larga escala da prática de corrupção no Brasil, apenas 18% dos respondentes afirmaram que atos de improbidade e comportamento antiético são comuns nos segmentos em que atuam. Percentual maior aos 11% da média global.
Ajudar a empresa a enfrentar momentos de recessão econômica foi uma justificativa levantada por 14% dos brasileiros para agir de forma antiética. Percentual inferior à média global (36%). Alcançar metas financeiras foi uma razão mencionada por 4% dos entrevistados.
A pesquisa ouviu 2.825 executivos de alto escalão, como diretores-financeiros e operacionais, chefes das áreas jurídicas, de compliance e de auditoria interna, das maiores companhias de 62 países, incluindo o Brasil, sobre corrupção, improbidade corporativa e comportamento antiético.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Por que a corrupção vicia e dá prazer?

Como uma droga, a corrupção vicia e dá prazer, e o "tratamento" possível -- a punição -- não garante que o problema será resolvido, segundo profissionais de psicanálise, psiquiatria e ciência política, que se debruçam sobre a questão.
"A sensação de poder tudo é muito excitante, produz o maior barato que existe. Imagine um orgasmo que durasse para sempre", diz a psicanalista Marion Minerbo, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. "Essa sensação maravilhosa vicia, quer dizer, ela pode se tornar necessária para a manutenção do equilíbrio psíquico dessas pessoas. Se perderem esse barato, ou mesmo se se sentirem ameaçadas de perder esse barato, podem se deprimir seriamente ou surtar."
A sensação de poder tudo é muito excitante, produz o maior barato que existe. Imagine um orgasmo que durasse para sempre
Marion Minerbo
Para o psiquiatra Fernando Portela, da Associação Brasileira de Psiquiatria, a corrupção é "um vício, um modo de vida" adotado por pessoas com "um vazio muito profundo" em seu sentimento de existência.
"Ele (o corrupto) tenta obter o maior número de coisas, de poder, de bens, o maior número possível para saciar um vazio na sua existência que ele nunca consegue saciar", explica. 

"Punição inibe até certo ponto"

Na esfera pública nacional, este vício é satisfeito pela oportunidade. Segundo a cientista política Rita Biason, do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Corrupção da Unesp, a falta de controle é o maior incentivo para um corrupto.
"O indivíduo que tem a possibilidade de obter algum ganho fácil com a utilização de recursos públicos irá fazê-lo", afirma. "O que temos são as duas extremidades: mecanismos de prevenção, como comitês e leis, e uma obsessão pela punição, como se ela fosse resolver. Só que a punição é um inibidor até certo ponto."
De acordo com Rita, a corrupção aparece em um ciclo complicado, no qual um político depende de dinheiro para atender eleitores, se reeleger e continuar dentro do esquema.
"Quando eu entro [no esquema], de alguma forma eu acabo participando, e não acho que haja inocentes", diz. "Não acho que seja uma escolha individual. É uma onda que te empurra e o mecanismo político que obriga a entrar. Se você está fora, você está fora do jogo."

Um mal incurável

Seja pela compulsão, seja pela falta de freios, os especialistas ouvidos pelo UOLdizem que a corrupção é um problema impossível de ser solucionado, mas pode ser contido.
"A corrupção não acaba. Ela vai ser controlada. Esse controle depende dos dispositivos que temos para mantê-la sob controle", reforça Rita Biason.
Segundo Portela, não se pode falar em cura. Um forte "choque moral", diz o psiquiatra, pode conter o corrupto por certo tempo. Mas, como um dependente químico, ele pode sucumbir diante do contato com a "droga".
A corrupção não acaba. Ela vai ser controlada. Esse controle depende dos dispositivos
Rita Biason
A psicanalista Marion Minerbo, por sua vez, afirma que não é possível falar em tratamento para uma pessoa corrupta porque o fenômeno depende de fatores individuais, interpessoais e culturais.
"Mas é possível falar em 'tratamento', com aspas, se considerarmos os fatores interpessoais e culturais. A impunidade é o fator interpessoal que cria a cultura que confirma ao indivíduo que ele pode ser/ter tudo. Já a aplicação justa da lei é o fator interpessoal que desconstrói essa cultura. É possível -- mas nada garante -- que, uma vez punido, comece a sentir emocionalmente que, como todo mundo, infelizmente, ele não pode tudo. Poderíamos então falar em 'cura'."
Matéria completa: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/04/25/corrupcao-vicia-e-da-prazer-dizem-especialistas.htm